C10. Filosofia


         ESCOLA MUNICIPAL DE ENSINO FUNDAMENTAL VEREADOR CARLOS PESSOA DE BRUM
Rua da Abolição, s/nº – Restinga Velha/Porto Alegre/RS

NOME: ______________________________________________________________________________________
DATA: _____/_____/_____
TURMA: _____
PROFESSOR: FÁBIO GAI PEREIRA
COMPONENTE CURRICULAR: FILOSOFIA

CONTEÚDO: O NASCIMENTO DA FILOSOFIA
MATERIAL 2

Por que fazer um debate filosófico?
Fábio Gai Pereira

A humanidade sempre teve que lidar com problemas. Um problema pode ser compreendido como uma situação desafiadora qualquer. Algo é desafiador para nós quando nos exige pensar sobre coisas que não estamos acostumados a pensar, nos obrigando a buscar soluções sobre situações que consideramos difíceis justamente por não termos experiência nelas. Por exemplo, dúvidas e conflitos são situações desafiadoras. Portanto, dúvidas ou conflitos são exemplos de problemas. Uma dúvida pode ser algo como: “por que existe o dia e a noite?” Um conflito pode ser algo como: “meu colega e eu brigamos com muita frequência, não conseguimos nos entender!”. Afinal, como resolver um problema, seja ele uma dúvida ou um conflito?
A filosofia nasceu na Grécia Antiga, entre os séculos VI e VII a.C., em um momento em que cada vez mais as pessoas deixavam de acreditar nos mitos como um recurso confiável para resolver problemas. Os problemas naquela época, assim como nos dias de hoje, eram situações desafiadoras e curiosas. Curiosas? Sim, por exemplo: como explicar os fenômenos da natureza ou explicar como surgiam nas nossas vidas os acontecimentos bons ou maus. Ou ainda: quais são as verdadeiras causas de toda a felicidade e de toda tristeza? O surgimento da filosofia tem a ver com o pensamento compartilhado por um grupo de pessoas que passaram a não acreditar mais que os deuses determinavam o destino das suas vidas e muito menos que a natureza seria controlada por eles. Por isso, podemos dizer que a filosofia baseia-se na razão para explicar como surgem os desafios e como eles podem ser superados. A palavra razão (em grego é lógos) designa o modo como os filósofos gregos chamavam a capacidade humana de pensar utilizando a linguagem para comunicar os raciocínios.
Raciocinamos, por exemplo, quando utilizamos a nossa mente para superar desafios, pensar soluções. A solução proposta pelos filósofos não é fazer oferendas aos deuses aguardando que eles resolvam o nosso problema. A solução proposta por eles também não tem nada a ver com o incentivo a guerras e à violência. A palavra lógos relaciona-se com verbo grego legô, que significa dizer. Ou seja, para superar um problema, seja ele uma dúvida ou um conflito, temos que passar pelo uso da palavra. É pelo uso de raciocínios, que apresentamos aos outros para que os avaliem, ou que ouvimos dos outros para que nós os avaliemos, é com esse espírito de comunidade de investigação[1] que a filosofia deseja descobrir a verdade. Comparando argumentos por meio de debates. Argumentos são raciocínios que utilizamos para convencer alguém de alguma ideia. E por serem debates motivados por perguntas filosóficas nós os chamamos de debates filosóficos.
A filosofia, portanto, é uma atividade que busca a verdade e a solução de problemas por meio de raciocínios, de avaliação de argumentos. É uma tarefa que nasceu como um esforço que pretende recorrer somente às capacidades humanas, sem basear-se na espera de que forças divinas venham em nosso socorro.


Perguntas científicas e perguntas filosóficas

A humanidade sempre foi desafiada por problemas, por dificuldades. Um temporal que acontece na região e, assim, um abrigo seguro é um desafio lançado à nossa sobrevivência. A falta de chuva faz com que haja a escassez de água em nosso bairro e, assim, uso da água passa ser um problema. Saímos de casa e estava com uma temperatura agradável e à noite sentimos muito frio, pois a temperatura mudou e estamos pouco agasalhados, a falta de roupas adequadas será um problema até nos aquecermos. Estamos sendo assaltados, grande problema! Esquecemos o dinheiro no ônibus e já embarcamos, outro problema! Esses são problemas que podem fazer parte das nossas vidas, como tantos outros desafios que enfrentamos. Problemas que surgem pela falta de saúde, de dinheiro, enfim. Há, entretanto, problemas filosóficos. O principal objetivo da filosofia é resolver problemas desse último tipo. Um problema filosófico é um desafio que surge para nós a partir de uma pergunta filosófica. Bem, o que é pergunta filosófica?
Vamos começar ressaltando que existem vários tipos de perguntas. Existem, por exemplo, as perguntas simples que estamos acostumados a fazer no dia-a-dia e que não exigem muito de nós, como: “que horas são?”, “será que choverá hoje à noite”, “vamos tomar um sorvete?”, ”você gosta de praia?”. Mas existem dois tipos de questionamentos sobre os quais, a partir de agora, vamos pensar um pouco mais: são as perguntas filosóficas e as perguntas científicas.
As perguntas filosóficas possuem quatro características: 1) são complexas, pois não podem ser respondidas com um mero “sim” ou “não”; 2) são profundas, pois não são questões como aquelas que estamos acostumados a fazer em atividades cotidianas e comuns; 3) são sempre ligadas a grandes temas, por exemplo: vida após a morte, justiça, beleza, liberdade, conhecimento, etc.; 4) a resposta a uma pergunta filosófica não é encontrada em uma simples pesquisa, mas comparando argumentos em um debate. Exemplos de perguntas filosóficas são: “o que é a beleza”, “o que é a liberdade”, “de onde vem o mal?”, “quando alguém está sendo injusto?”, “mentir é sempre errado?”.
Já as perguntas científicas podem ser respondidas depois que fazemos uma pesquisa, sem que para isso seja necessário fazer um debate. Perguntas filosóficas sempre precisam de um debate para serem respondidas. Vejamos alguns exemplos de perguntas científicas: “quantos planetas existem em nosso sistema solar?”, “há quanto tempo os seres humanos habitam o planeta Terra?”, “quantos tipos de flores existem?”. Bem, para responder essas perguntas não é preciso fazer um debate em sala aula, para respondê-las precisamos pesquisar com cuidado e da maneira que melhor possamos organizar as informações que conseguirmos encontrar. Agora, vamos filosofar!



[1]O termo comunidade de investigação empregado no texto faz referência ao trabalho do filósofo Matthew Lipman (1922-2010).

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