C30. História
Componente Curricular: História / Professor(a):
Raphael Martins de Mello / Turmas: C30
A PRIMEIRA REPÚBLICA - PARTE 1: DOMINAÇÃO
BOULOS JUNIOR, Alfredo. História: sociedade & cidadania. 9º ano. 4. ed. São Paulo: FTD,
2018.
OLIGARQUIAS NO PODER
Durante o Império, o governo central impunha seu poder às
províncias, nomeando quem iria governá-las. Com o estabelecimento da República,
porém, a situação mudou: as famílias mais poderosas de cada estado, isto é, as oligarquias
estaduais, passaram a ter um enorme
poder político. Vejamos como isso se deu.
(Oligarquia: palavra de origem grega que
significa governo exercido por poucos indivíduos ou famílias poderosas.)
O CORONELISMO
Para conseguirem o poder, os políticos saídos das famílias mais
poderosas de cada estado forçavam os eleitores a votarem nos candidatos por
eles indicados. Muitos desses políticos eram grandes fazendeiros e coronéis da Guarda
Nacional; daí serem chamados de “coronéis”.
(Guarda Nacional: Força composta de cidadãos
armados e fardados não pertencentes ao Exército. Foi criada em 1831 pelo
regente Feijó para manter a ordem nas províncias.)
Quase sempre, o coronel conseguia o voto do eleitor por meio da troca de favores: o coronel oferecia
“favores”, como uma sacola de alimentos, remédio, segurança, dinheiro
emprestado ou emprego. Em troca desses “favores” exigia que votassem nos
candidatos indicados por ele. Esse voto controlado pelo coronel é chamado de voto
de cabresto: Na época, a fraude eleitoral era generalizada: falsificação de
resultados, roubo de urnas, inclusão dos votos de crianças, de defuntos, de
pessoas inexistentes eram práticas comuns nas eleições. Era assim que os
poderosos de cada localidade ou estado se perpetuavam no poder.
(Voto
de cabresto: expressão dada pela relação entre as palavras I) ‘voto’, que indica o exercício pleno
da democracia e II) ‘cabresto’, do
latim capistrum, que significa “mordaça”
ou “freio”. Dessa maneira, temos um conceito quase paradoxal, contrário em si
mesmo, uma vez que representa a democracia amordaçada e guiada como um animal
de carga.)
Esta charge de 1918 ironiza o processo eleitoral
durante a Primeira República (1889-1930). Como sugere o artista, na época até
mesmo os defuntos votavam. O defunto pede para o transeunte visar seu título de
eleitor; e ele responde com uma expressão que mistura espanto e indignação.
Os coronéis mais
poderosos de cada região faziam alianças entre si e elegiam o presidente de
estado (cargo equivalente hoje ao de governador). Este, por sua vez, retribuía
o “favor” enviando verbas para a construção de escolas, praças, igrejas, etc.,
nas cidades controladas por aqueles coronéis.
Vestindo calça clara e paletó preto, um poderoso coronel
senta-se entre deputados cearenses da Primeira República, no ano de 1914.
A POLÍTICA DOS GOVERNADORES
Usando as mesmas práticas (troca de favores e corrupção eleitoral)
as oligarquias estaduais ajudavam a eleger deputados e senadores favoráveis ao
presidente da República. Este, por sua vez, retribuía o “favor” liberando
verbas, benefícios e dando apoio político a elas. Esse esquema político que
ligava os governos estaduais ao presidente da República foi concebido pelo
presidente Campos Salles (1898-1902) e recebeu o nome de política dos governadores.
Assim, por meio de alianças e trocas de favores que uniam
municípios, estados e governo federal, as oligarquias mantiveram-se no poder
durante a maior parte da Primeira República. Observe o esquema a seguir.
As oligarquias estaduais mantinham-se no poder por meio
de alianças e favores que uniam municípios, estados e governo federal. O
coronelismo era a coluna mestra desse edifício baseado na fraude eleitoral e na
corrupção.
A CAFÉ COM LEITE OU CAFÉ COM POLÍTICA?
Durante muito tempo se acreditou que a aliança entre São Paulo
(café) e Minas (grande produtor de leite), os estados mais ricos e mais
populosos na época, teria permitido à oligarquia desses dois estados o controle
exclusivo do poder na Primeira República; essa aliança entre São Paulo e Minas
foi chamada de “política do café com leite”. Estudos recentes mostram, no
entanto, que não foi bem assim. Veja o que a historiadora Cláudia Viscardi diz
sobre o assunto:
“Café com política
Análises recentes das sucessões presidenciais na Primeira
República (1889-1930) mostram que a famosa aliança entre Minas Gerais e São
Paulo, chamada de política do “café com leite”, não controlou de forma
exclusiva o regime republicano. Havia outros quatros estados, pelo menos, com
acentuada importância no cenário político: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro,
Bahia e Pernambuco. Os seis, para garantirem sua hegemonia, possuíam uma forte
economia e (ou) uma elite política compacta e bem representada no Parlamento.
E, juntos ou separados, participaram ativamente de todas as sucessões
presidenciais ocorridas no período.
Além desses estados, havia dois coadjuvantes respeitáveis: o
Exército e o Executivo. Os militares se destacaram no regime em seus primeiros
anos – durante a presidência dos marechais Deodoro da Fonseca (1889/1891) e
Floriano Peixoto (1891/1894) –, retornando ao poder em 1910, quando o país foi
presidido pelo marechal Hermes da Fonseca (1910/1914). [...] Já o Executivo
Federal conseguiu manter o privilégio de intervir sobre as oligarquias mais
frágeis, impondo seu controle sobre elas quando julgasse oportuno, além de
exercer atuação marcante na sua própria sucessão. [...]
O poder de Minas Gerais nesse período é explicado não pela força
econômica do gado de leite, mas pela sua projeção política garantida pela
bancada de 37 deputados, a maior do país. E a influência de Minas, também
derivada da forte cafeicultura, já que foi o segundo maior produtor de café do
Brasil até o final da década de 1920, sendo responsável por 20% em média. A
expressão mais adequada para a pressuposta aliança Minas Gerais/São Paulo
seria, então, “café com café” e não “café com leite”. [...]”
VISCARDI,
Cláudia M. R. Aliança “Café com política”. Nossa
história. Rio de Janeiro, ano 2, n. 19, p. 45, maio 2005.
Inauguração
do Café do Rio. Rio de Janeiro, 6 de maio de 1911.
INDÚSTRIA E OPERÁRIOS NA PRIMEIRA REPÚBLICA
Durante a Primeira
República ocorreu um crescimento constante do número de indústrias no Brasil.
Em 1889, ano da proclamação da República, o Brasil possuía 636 indústrias e
cerca de 54 mil operários.
Veja como essa situação
se alterou observando a tabela a seguir:
|
Ano
|
Número de indústrias
|
Número de operários
|
|
1907
|
3 258
|
149 018
|
|
1920
|
13 336
|
275 512
|
Fonte: DE DECCA. Maria
Auxiliadora Guzzo. Indústria, trabalho e cotidiano: Brasil (1889-1930). São Paulo: Atual, 1991.
p. 24. (História em documentos).
Perceba que entre 1907 e
1920 o número de empresas cresceu por volta de quatro vezes, enquanto o número
de operários empregados quase duplicou.
Durante muito tempo se
disse que esse crescimento deveu-se, em grande parte, aos efeitos da Primeira
Guerra (1914-1918) sobre a nossa economia, quando o país foi forçado a fabricar
o que antes importava. Estudos recentes, no entanto, demonstram que a
industrialização brasileira foi estimulada por quatro fatores principais: I) capitais nacionais (acumulados com
as exportações agrícolas, sobretudo de café); II) disponibilidade de matéria-prima; III) grande oferta de mão de obra barata; IV) um sistema de transportes ligado aos portos.
Ao
centro, o conde Matarazzo, sentado com a sua família (1910).
São Paulo tornou-se o estado mais industrializado do país. As
maiores fábricas paulistas foram montadas por fazendeiros de café, como Antônio
Álvares Penteado, e por imigrantes, como Francisco Matarazzo. Os principais
ramos industriais da época, em ordem de importância foram: o têxtil, o de
alimentação – incluindo bebidas – e o de vestuário.
MODERNIZAÇÃO E INDUSTRIALIZAÇÃO
Os processos de industrialização
e modernização ocorreram ao mesmo tempo em várias cidades. Vejamos o caso de
São Paulo.
Até 1850, São Paulo era
uma cidade pequena, provinciana e politicamente pouco importante para o
Império. Sua área mais urbanizada era formada pelas ruas Direita, XV de
novembro e São Bento. Com o boom da
economia cafeeira, a cidade ganhou uma extensa rede ferroviária, comercial e
financeira. E na década de 1870, passou a crescer em um ritmo acelerado. Com o
crescimento da cidade, o centro antigo de São Paulo deixou de ser desejado como
área residencial.
A lógica do crescimento
urbano empurrou a população pobre para áreas onde os terrenos eram mais baratos
e as linhas ferroviárias, cm várias estações ajudavam, pois, no transporte das
pessoas. Alinhadas a essa rede ferroviária, ergueram-se também indústrias que,
à época, se tornaram um elemento característico da paisagem paulistana.
A elite paulistana buscou
áreas onde havia chácaras, como a Vila Buarque, Santa Cecília e Campos Elíseos,
e lá construiu bairros residenciais com mansões luxuosas, como Higienópolis e
Pacaembu. No alto, ergueu-se a Avenida Paulista, o documento
mais visíve4l d poder dos cafeicultores.
Um dos marcos decisivos
da cidade de São Paulo no processo de modernização foi a constituição da Light, em 1889, empresa com sede em Toronto, no
Canadá. Depois de obter, mediante compra, o direito de explorar o serviço de
transporte, a Light passou a investir também na distribuição de energia
elétrica na cidade.
(Light: The São Paulo Tramway,
Light & Power Company – tradução: Companhia de Bonde, Luz e Energia de São Paulo)
Outro marco importante na
modernização de São Paulo foi a estréia do bonde elétrico em 1900. A substituição do
bonde puxado por burros por bonde elétrico contribuiu para aumentar a
velocidade, diminuir o tempo do transporte e melhorar também a higiene pública,
já que evitava o enxame de moscas que rendavam as fezes das mulas.
A energia elétrica e os
transportes impulsionaram a indústria, o comércio, os serviços e também o lazer
da cidade aos bairros, servindo, sobretudo, ao transporte de trabalhadores e
estudantes, além de estimular a ocupação de espaços vazios e a formação de
novos bairros. Exemplo disso são as linhas que passavam por bairros como Penha,
|Santana, Jabaquara, Santo Amaro e Pinheiros.
Nos anos 1920, enquanto o
centro de São Paulo se verticalizava com a construção de inúmeros prédios, a
periferia da cidade se expandia com a formação de novos bairros. Na década de 1920, a população de São
Paulo saltou de 580 mil para 888 mil habitantes, crescimento de mais de 50%.
Referindo-se a esse crescimento vertiginoso da cidade, o poeta Mario de Andrade
chamou-a de “Pauliceia Desvairada”.
Entre 1890 e 1920, outras
importantes cidades também cresceram: a população do Rio de Janeiro passou de
522 mil para 1,1 milhão de habitantes; e a de Salvador, de 175 mil para 285 mil
habitantes.
IMIGRANTES NO BRASIL
Na Primeira República, a
industrialização e a urbanização estão estreitamente associadas à imigração.
Entre 1890 e 1930, cerca de 3,2 milhões de imigrantes vieram para o Brasil em
busca de uma vida melhor.
O grupo mais numeroso
entrado no Brasil daquela época foi o dos italianos. O estado de São Paulo,
sozinho, recebeu 57,7% do total de imigrantes, pois oferecia bons atrativos:
pagava as despesas com passagens, dava alojamento e oferecia oportunidades de
trabalho. Por serem de cor branca e católicos, italianos, portugueses e
espanhóis foram os imigrantes preferidos das autoridades e dos fazendeiros
brasileiros. A elite brasileira acreditava na superioridade do europeu sobre os
demais povos. Em 1911, o médico João Batista de Lacerda, representante
brasileiro no Congresso Mundial das Raças, em Londres, afirmou que, em 100
anos, o negro e o indígena desapareceriam graças à miscigenação, e, com isso,
ocorreria o branqueamento da população brasileira.
Portugueses e
italianos
Os portugueses eram, em sua maioria, pessoas
pobres provenientes das regiões do Minho e de Trás-os-Montes. Enquanto os
portugueses montavam pequenos negócios ou trabalhavam como artesãos
(sapateiros, alfaiates e ferreiros) nas cidades, os italianos dirigiam-se aos
cafezais do Sudeste e às pequenas propriedades agrícolas do Sul ou então
trabalhavam como operários nas fábricas que surgiam no Rio de Janeiro e em São
Paulo.
Japoneses, sírios e libaneses
Entre o final do século XIX e princípios do
século XX, um fato inédito foi a entrada de asiáticos, com destaque para os
japoneses. Esses últimos começaram a chegar em abril de 1908, pelo porto de
Santos, e dirigiram-se às fazendas de café de Ribeirão Preto e de outras
cidades do interior paulista. A partir de 1925, o governo japonês passou a
pagar as passagens dos que emigravam para o Brasil. Alguns imigrantes
japoneses, pouco a pouco, tornaram-se pequenos proprietários e tiveram papel
importante na diversificação das atividades agrícolas.
O branqueamento
na pintura ‘A redenção de Cam’, de
Modesto Brocos y Gomes (1895).
A PRIMEIRA REPÚBLICA - PARTE 2:
RESISTÊNCIA
CONTESTAÇÕES E DINÂMICAS DA VIDA CULTURAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA
A Guerra de Canudos
Nas últimas décadas do
século XIX, a concentração de terras nas mãos de poucos, o desemprego, as
disputas entre as famílias de grandes fazendeiros (os coronéis) e as secas
constantes tornavam a vida da maioria dos habitantes do sertão nordestino quase
insuportável.
Nesse cenário marcado por
violência e exclusão social, surgiu no sertão nordestino, em 1870, um líder
religioso chamado Antônio Vicente Mendes Maciel, o “Conselheiro”. Nascido em
Quixeramobim, no Ceará, Antônio Conselheiro exerceu na juventude várias
ocupações, entre elas a de professor. Certo dia, abalado por dissabores na vida
pessoal, deixou o Ceará e iniciou sua vida de beato. Andava pelo sertão afora pregando de cidade
em cidade e promovendo mutirões para ajudar pequenos agricultores, reformar igrejas e erguer
muros de cemitérios. E, aos poucos, foi reunindo um grande número de
seguidores.
(Beato: devoto religioso que prega e faz profecias.)
(Mutirão: trabalho coletivo realizado gratuitamente em
benefício de uma ou mais pessoas.)
Em 1893, o Conselheiro e sua gente estabeleceram-se no sertão baiano, às margens do Rio Vaza-Barris, nas terras de uma antiga fazenda chamada Canudos. Ali começaram a construir um povoado, que inicialmente foi chamado de Belo Monte e, depois, de Canudos. Os habitantes do arraial eram, em sua maioria, sertanejos pobres que fugiam aos desmandos dos coronéis e ao desemprego, em busca de autonomia e conforto espiritual. Mas lá havia também negociantes, enfermeiros, soldados, artesãos, mineradores e professores.
|
Os sertanejos cultivavam
milho, feijão, batata e criavam cavalos e bodes, cujo couro era usado para
fazer vestimenta, calçado, chapéu e para comerciar com as vilas e cidades da
região. A autonomia da gente de Canudos, sua decisão de viver conforme a
leitura da Bíblia feita por
Conselheiro e, sobretudo, a decisão de não pagar os novos impostos lançados
pela República foram vistas como uma ameaça à ordem estabelecida. Os poderosos
da região passaram a dizer que Canudos era um reduto de monarquistas fanáticos
e perigosos.
Foi o que bastou para que
o governo enviasse várias expedições militares contra Canudos.
Os sertanejos venceram as
três primeiras expedições do governo por meio da tática de emboscadas. Eles saíam da mata fechada gritando vivas a
Bom Jesus e a Antônio Conselheiro e atacavam os inimigos com armas de fogo,
facas e facões. O então presidente Prudente de Morais enviou a Canudos uma nova
expedição com mais de 7 mil soldados que, com dinamite e balas de canhão,
arrasou o arraial. Em 5 de outubro de 1897, as casas de Canudos tinham sido
incendiadas e sua população, massacrada.
(Emboscada: tática que consiste em esperar o inimigo às
escondidas e atacá-lo de surpresa.)
Soldados
da repressão e três crianças que sobreviveram à destruição de Canudos, 1897.
A Guerra do Contestado
Entre Santa Catarina e
Paraná, numa área contestada (disputada) por esses dois estados, ocorreu outro
movimento de sertanejos pobres e muito religiosos. Observe o mapa da página
seguinte.
Na região do Contestado,
reinava um clima de forte tensão social, pois os coronéis locais expandiam suas
fazendas de gado e de erva-mate tomando as terras dos indígenas e dos posseiros à força. A tensão aumentou ainda mais quando
o governo brasileiro contratou uma empresa estadunidense, a Brazil Railway Company, para construir
um trecho da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande do Sul. E, como parte do
pagamento, cedeu a ela uma faixa de 15 quilômetros de
cada lado da ferrovia. Em 1911, esta empresa criou uma outra – a Lumber – que se comprometeu a colonizar
a região com famílias vindas da Europa. O interesse da Lumber, porém, não era colonizar, mas explorar o pinho e a imbuia
da rica floresta nativa. Os dirigentes da empresa estadunidense, então, pagaram
capangas para expulsar os sertanejos daquela área e instalaram em Três Barras
(SC) o maior complexo madeireiro da América do Sul na época.
(Posseiro: pequeno proprietário que ocupou uma terra
inexplorada e a cultivou durante anos ganhando o direito de posse sobre ela.)
A Lumber dedicava-se à extração e
exportação de pinho e imbuia. Na foto, funcionários da Lumber carregam toras de araucária, madeira da região de alto valor
comercial. Santa Catarina, 1915.
Sem terras para morar, os
sertanejos do Contestado passaram a seguir o beato José Maria e, com ele,
ergueram povoados na área de Santa Catarina pretendida pelo Paraná.
O
monge José Maria benzendo e confortando sertanejos. Óleo sobre tela de Willy
Zumblick, 1953.
Os fazendeiros e a
imprensa do Paraná passaram a dizer que parte dos sertanejos do Contestado eram
monarquistas fanáticos e inimigos da República (as mesmas palavras usadas para
criticar os sertanejos de Canudos). Mas, na verdade, os sertanejos do planalto
catarinense reagiam à perda de suas terras, à penetração do capitalismo no
campo e ao desrespeito a seus costumes e tradições.
O governo do Paraná
enviou forças militares contra o Contestado, e, durante a luta que então se
travou, o monge José Maria e o comandante adversário morreram. Inconformados,
os sertanejos passaram a dizer que o monge José Maria ia retornar à Terra para
fazer valer a “lei da coroa do céu”; o movimento ganhou novos integrantes e o
número de “vilas santas” cresceu.
(Vilas Santas: nome que os sertanejos do Contestado davam
aos seus povoados.)
Durante um confronto com
forças militares locais, os sertanejos incendiaram a sede da empresa
estadunidense que os havia expulsado de suas terras. Diante disso, o governo de
Hermes da Fonseca lançou contra o Contestado cerca de seis mil soldados armados
de canhões e metralhadoras e apoiados por aviões. Em nome da República e do
progresso, as “vilas santas” foram arrasadas e os camponeses, fuzilados ou
queimados. Com o fim do Contestado, em 1916, os governos do Paraná e de Santa
Catarina chegaram a um acordo, acertando os limites entre os dois estados.
O cangaço
O contexto de opressão e
abandono que favoreceu o surgimento de líderes religiosos, como Antônio
Conselheiro e o monge José Maria, também facilitou o aparecimento do cangaço,
forma peculiar de banditismo que se desenvolveu nas áreas de caatinga, no
interior do Nordeste.
Desde o século XVIII,
bandos armados a serviço dos grandes fazendeiros adentravam o sertão para tomar
as terras dos indígenas e instalar fazendas de gado. Esses bandos serviam a
quem lhes pagava; por isso se diz que praticavam o cangaço dependente.
Entre 1900 e 1940, no
entanto, surgiram no sertão nordestino bandos de cangaceiros que viviam de
assaltos e em luta constante com a polícia. Tais bandos agiam por conta
própria; por isso se diz que praticavam o cangaço
independente. Os mais importantes líderes dessa modalidade de cangaço foram
os cangaceiros Antônio Silvino, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1900-1938), e Corisco.
Virgulino
Ferreira, o Lampião (no centro) cercado de cangaceiros no sertão.
Lampião e seu bando
cobravam aos fazendeiros e comerciantes uma espécie de “imposto”; já quando o
objetivo era se vingar, espancavam, torturavam, saqueavam e degolavam, tanto
pobres quanto ricos. Em 1938, delatado por um comerciante, Lampião e a maioria
de seu bando foram mortos e decapitados. Dois anos depois, Corisco, que
sucedera Lampião na chefia do bando, também foi morto, fato que marcou o fim do
cangaço.
A Revolta da Vacina
Nas cidades, as camadas
populares também resistiram ao autoritarismo e ao descaso das autoridades. Em
1902, o então presidente Rodrigues Alves confiou a Pereira Passos, prefeito do
Rio de Janeiro (capital federal), o seu plano de modernizar e higienizar a
cidade. O prefeito começou pela construção da Avenida Central (hoje Rio Branco)
e para isso autorizou a demolição de casarões e casebres do centro, habitados
pela população humilde da cidade. Aos gritos de “Bota Abaixo!”, os funcionários
da prefeitura derrubaram quarteirões inteiros.
Movimento
de pedestres e automóveis na Avenida Rio Branco, antiga Avenida Central. Rio de
Janeiro, 1912.
Expulsos da região
central, os antigos moradores do centro foram viver na periferia da cidade ou
subiram os morros onde construíram barracos de tábuas cobertos com latas de
querosene abertas. Ao mesmo tempo, o médico sanitarista Dr. Oswaldo Cruz foi
indicado pelo governo para combater a febre amarela, a varíola e a peste
bubônica, doenças que vinham matando milhares de pessoas na cidade do Rio de
Janeiro. Em 1904, um projeto de lei que defendia a obrigatoriedade da vacina
contra a varíola dividiu e agitou a sociedade carioca; conheça os principais
argumentos de cada um dos lados.
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Argumentos a favor da
obrigatoriedade da vacina
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Argumentos contra a obrigatoriedade
da vacina
1. Cada pessoa devia ter o direito de
escolher se queria ser vacinada ou não.
2. Os soros e os funcionários da saúde
não eram confiáveis; os policiais usariam a força para vacinar as pessoas.
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Convencido pelo Dr.
Oswaldo Cruz, o Congresso aprovou, em 1904, a Lei da Vacina Obrigatória, que
autorizava os funcionários da saúde a vacinarem contra a varíola todos os
brasileiros a partir de seis meses de idade. Os desobedientes eram ameaçados
com multas e demissões.
A obrigatoriedade da vacina, as demolições no centro da cidade, o custo de vida elevado, tudo isso levou a uma revolta popular, conhecida como Revolta da Vacina (1904). De
Charge
publicada em O Malho (1905),
satirizando Oswaldo Cruz, então diretor da Saúde Pública e defensor
intransigente da obrigatoriedade da vacina.
O governo ordenou que
seus navios de guerra bombardeassem os bairros situados na orla litorânea e, ao
mesmo tempo, suspendeu a obrigatoriedade da vacina contra a varíola; a Revolta
foi desarticulada e seus líderes foram lançados aos porões de um navio e
enviados ao Acre, região que tinha sido incorporada ao Brasil em 1903.
A Revolta da Chibata
No mar, também ocorreu um
episódio de resistência popular.
Os navios da Marinha
brasileira estavam entre os mais modernos da época, mas o Código Disciplinar da
Marinha lembrava os tempos da escravidão: faltas leves eram punidas com a
prisão na “solitária” por três dias; faltas leves repetidas, com prisão por seis dias;
faltas consideradas graves com 25 chibatadas.
(Solitária: local de uma prisão em que o prisioneiro
fica separado dos outros.)
Em novembro de 1910, um
dia após a posse do presidente Hermes da Fonseca, o marinheiro negro Marcelino
Rodrigues Menezes foi condenado a 250 chibatadas embora o regulamento
permitisse 25 no máximo. O castigo foi dado no interior de um navio e aos olhos
de toda a tripulação. Apesar de ter desmaiado durante o castigo, continuou a
ser chicoteado. Era o que faltava para a explosão da revolta. Através de
manobras rápidas, os marinheiros, liderados por João Cândido, dominaram os
oficiais e assumiram o comando dos principais navios de guerra ancorados no Rio
de Janeiro: o Minas Gerais e o São Paulo. Apontando seus canhões para a cidade,
os rebeldes exigiram o fim do castigo da chibata; o aumento dos soldos e a anistia para os marinheiros rebelados.
(Soldo: salário de soldado.)
(Anistia: decisão do poder público, que anula punições
e concede perdão a alguém por atos considerados ilegais.)

Sem forças para enfrentar
a rebelião, o governo concordou em proibir os castigos corporais na Marinha e
em anistiar os rebeldes. Os marinheiros cumpriram sua parte no acordo e
devolveram os navios aos oficiais. O governo, porém, quebrou o acordo e partiu
para a vingança: baixou um decreto que permitia expulsar da Marinha os
elementos “indesejáveis” e mandou prender os líderes da Revolta; dezesseis
deles morreram no presídio da Ilha das Cobras, nove foram fuzilados na viagem
para a Amazônia e dezenas de marinheiros foram condenados ao trabalho forçado
nos seringais da região. O líder maior da Revolta, o marinheiro João Cândido,
foi internado como louco. Mas, graças a sua luta e a de seus companheiros,
aboliram-se os castigos corporais na Marinha brasileira.
João
Cândido em fotografia de 1910. Apelidado por um jornalista de “Almirante Negro”.
João Cândido morreu em 1967 sem patente e sem aposentadoria, vendendo peixes
que ele próprio pescava no cais de uma praia do Rio de Janeiro.
O movimento operário
No início do século XX, o
ambiente das fábricas era insalubre, mal-iluminado e sem ventilação adequada;
os operários trabalhavam de 14
a 16 horas por dia por salários que não acompanhavam o
aumento do custo de vida; além disso, não havia direito a férias, nem a
aposentadoria. Em 1920, em São Paulo, 51% dos operários eram estrangeiros,
enquanto no Rio de Janeiro estes somavam 35%; a maioria formada por imigrantes
italianos, portugueses e espanhóis.
Operários
das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, em São Paulo, c. 1900.
As ideologias do movimento operário
As doutrinas que tinham
maior penetração no movimento operário eram o socialismo e o anarquismo.
Os socialistas fundaram
vários partidos políticos, como o Partido
Operário, criado em 1890, na cidade do Rio de Janeiro. Eles lutavam por
direitos como a jornada de 8 horas e desejavam conquistá-los, sobretudo, por
via democrática. Já o anarquismo era predominante em São Paulo. Contrários à
existência do Estado, os anarquistas se negavam a participar das eleições;
defendiam a conquista do poder pelos operários por meio da greve geral
revolucionária.
A luta pelas 8 horas
No início do século XX,
os operários tornaram-se mais atuantes. Em 1906 realizaram, no Rio de Janeiro,
o 1º Congresso Operário Brasileiro,
reunindo trabalhadores de várias partes do Brasil. Esse Congresso decidiu que o
dia 1º de Maio de 1907 marcaria o início de uma grande campanha pela jornada de
8 horas de trabalho.
Os operários fizeram
então várias greves naquele ano, a maioria delas em São Paulo. O governo reagiu
reprimindo e prendendo trabalhadores. Apenas duas categorias conseguiram
conquistar a jornada de 8 horas: os gráficos e os pedreiros. Como resposta a
esse movimento grevista, o governo aprovou, em 1907, a Lei Adolfo Gordo, que permitia expulsar
do Brasil os imigrantes que participassem de greves. Apesar disso, as lutas
operárias continuaram intensas.
A greve de 1917
Em 1917, os operários de
São Paulo realizaram a maior greve ocorrida na Primeira República. O movimento iniciou-se
com a paralisação de algumas fábricas da Mooca e do Ipiranga (bairros da
capital paulista) e logo se alastrou. Numa das manifestações dos trabalhadores
– às portas de uma fábrica de tecidos do grupo Matarazzo –, a polícia abriu
fogo contra os manifestantes, baleando o operário anarquista José Martinez, que morreu no dia
seguinte.
Trabalhadores
em frente a uma fábrica têxtil na Mooca, em São Paulo, SP, no início do século
XX.
O
enterro do jovem operário foi o estopim de uma greve geral em São Paulo e
enfrentamentos entre trabalhadores e policiais. Para voltar ao trabalho, os
trabalhadores exigiam:
• jornada de 8 horas e aumentos salariais;
• abolição do trabalho noturno para mulheres e menores de 18 anos;
• pagamento pontual;
• diminuição dos aluguéis e congelamento dos preços dos alimentos.
O
movimento grevista se alastrou para o Rio de Janeiro, Paraíba, Minas Gerais e
Rio Grande do Sul.
Em
São Paulo, os patrões concordaram em aumentar os salários em 20% e prometeram
não dispensar nenhum grevista, respeitar o direito de reunião, libertar os
grevistas presos e fazer esforços, em conjunto com o governo, para melhorar as
condições de vida dos trabalhadores. Diante dessas promessas, o operariado
paulista voltou ao trabalho. Terminada a greve, porém, os empresários passaram
a perseguir e a demitir os principais líderes do movimento.
Nos
anos seguintes à greve geral de 1917, as lutas operárias por melhores condições
de vida e de trabalho prosseguiram. Em março de 1922, um grupo composto por
líderes operários e intelectuais fundou o Partido Comunista do Brasil (PCB). Os
comunistas, ao contrário dos anarquistas e socialistas, possuíam uma
organização centralizada e nacional, que defendia um governo do proletariado e
a coletivização das terras e das fábricas. Diferentemente dos anarquistas, os
comunistas participavam do processo eleitoral, pois julgavam que esse era um
meio legítimo de atuação para a transformação social.
Trabalhadores
ocupam bonde da Light durante a greve
de 1917. São Paulo, junho de 1917.
Poucos
meses após sua fundação, o PCB foi colocado na ilegalidade pelo governo
republicano. Apesar disso, continuou a atuar de forma clandestina nos sindicatos e na
imprensa operária. De sua parte, os jornais do patronato passaram a rotular
todas as greves como ações comunistas orientadas por Moscou, capital da então
União Soviética.
(Clandestina:
oculta, escondida.)
As
autoridades da Primeira República, por sua vez, consideravam o movimento
operário como um “caso de polícia” e o reprimiam invadindo associações
operárias e prendendo grevistas. O presidente Artur Bernardes, no entanto, usou
uma outra estratégia para enfraquecer o movimento operário: em 1925 tornou
feriado nacional o dia 1º de maio. Com isso, pretendia que os trabalhadores
deixassem de ver e usar essa data como dia de resistência e a transformassem em
dia de festa.
O
modernismo
Em
1922, ano da fundação do PCB, e em sintonia com as mudanças que vinham
ocorrendo no Brasil e na Europa, um grupo de intelectuais e artistas
brasileiros lançou um movimento cultural conhecido como modernismo. Buscar
respostas para a pergunta: “quem somos nós?”, “O que é ser brasileiro?”,
reelaborar as culturas vindas do exterior e valorizar a cultura popular eram
algumas de suas principais palavras de ordem.
Comissão organizadora da
Semana de Arte Moderna de 1922. Em pé, Manuel Bandeira é o segundo e Mário de
Andrade, o terceiro, a contar da esquerda para a direita. Oswald de Andrade
aparece sentado e isolado em primeiro plano.
O
movimento modernista teve início na Semana de Arte Moderna, evento realizado no
Teatro Municipal de São Paulo, entre 13 e 17 de fevereiro de 1922. A exposição contou
com trabalhos de pintores, como Di Cavalcanti e Anita Malfatti, escritores e
poetas, como Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Na ocasião, além da mostra
de arte, houve também a declamação de poesias, palestras acerca das ideias
modernistas e apresentações de música e dança.
O
modernismo teve grande importância na história brasileira e podemos dividi-lo
em dois momentos distintos. No primeiro, que se iniciou em 1922, o importante
era o processo de atualização e de modernização da cultura e o combate a
quaisquer formas de culto ao passado. A partir de 1924, o essencial passou a
ser a produção de uma arte inteiramente própria.
No
contexto desse segundo momento é que o sociólogo Gilberto Freyre publicará Casa Grande & Senzala (1933) e o
historiador Sérgio Buarque de Holanda irá produzir Raízes do Brasil (1936), obras que expressam o esforço dos
intelectuais modernistas de pensar o país a partir do que ele é, ou seja,
“brasileirar o Brasil”, na feliz expressão de Mário de Andrade.
Na
literatura, os autores brasileiros inovaram não apenas no conteúdo, mas também
na forma; criando poemas sem rima e textos que ousavam quebrar as regras
gramaticais.
Leia
o exemplo a seguir:
“Erro
de português
Quando
o português chegou
Debaixo
duma bruta chuva
Vestiu
o índio
Que
pena! Fosse uma manhã de sol
O
índio tinha despido
O
português”
ANDRADE, Oswald
de. O santeiro do mangue e outros poemas.
São Paulo: Globo/Secretaria do Estado da Cultura, 1991. p. 95.
O
movimento iniciado em São Paulo espalhou-se para algumas regiões do país.
Várias revistas modernistas, com artigos sobre pintura, escultura, literatura e
história, foram lançadas em diferentes estados.
1. Leia o texto a seguir
com atenção e responda ao que se
pede:
“Traçada uma linha que
passa entre os municípios de Palmas, União da Vitória, Rio Negro, Lages,
Curitibanos e Campos Novos, abrangendo cerca de 28 mil quilômetros quadrados, a
terça parte do atual estado de Santa Catarina, a região do meio oeste e
planalto norte, abrangendo também uma parte do sul e sudoeste do Paraná,
configura-se a região onde ocorreu, na segunda década do século XX, um dos
conflitos sociais mais sangrentos da história do Brasil. Calcula-se que em 1910
havia, nessa região [...], cerca de 50 mil habitantes, sendo que destes [...],
aproximadamente 20% foram mortos. Por toda essa região existem diversos
cemitérios que lembram esse conflito sangrento.”
TIMAZI, Gilberto.
Heranças e lideranças jovens do Contestado. História Catarina, ano 4, n. 18, abr. de
2010, p. 35.
a) Qual é o nome do conflito a que o texto se refere?
b) Onde esse conflito ocorreu?
c) Qual foi o número de mortos no conflito segundo o texto?
d) A Revolta do Contestado pode ser considerada como um episódio da
luta pela terra no Brasil? Justifique.
2. Observe a charge com atenção; leia a legenda
e repare nos trocadilhos feitos pelo
chargista e responda:
“O Dr.
Passos com passo seguro foi à noite ao ex-paço e quando amanheceu o dia... Foi
um dia um barracão.”
K.
Lixto. 1903. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, RJ.
a) O que se
vê na charge?
b) Juntando
imagem, texto e o que você estudou neste capítulo, é possível descobrir a
intenção do autor da charge?
c) Quais
foram os efeitos das demolições efetuadas a mando de Pereira Passos no centro
do Rio de Janeiro? Na literatura, os autores brasileiros inovaram não apenas no
conteúdo, mas também na forma
3. Leia com atenção as fontes #1 e #2.
Fonte #1
“Sergipe, Fazenda Angico
Meus crimes se
terminaram
O criminoso era eu
E os santinhos me
mataram
Um Lampião se apagou
Outros Lampiões ficaram
O cangaço continua
De gravata e jaquetão
Sem usar chapéu de couro
Sem bacamarte na mão
E matando muito mais
Tá assim de lampião.”
Lampião Falou. Música de
Aparício Nascimento e Venâncio, cantada por Luiz Gonzaga.
In: ROITMAN, Valter. Cangaceiros: crime e aventura no sertão. São Paulo: FTD, 1997, p. 43.
In: ROITMAN, Valter. Cangaceiros: crime e aventura no sertão. São Paulo: FTD, 1997, p. 43.
Fonte #2
“O cangaceiro é doente
É um indivíduo anormal
Recebendo a influência
Do ambiente social
Com justiça e instrução
É difícil um Lampião
Cair na trilha do mal
[...]
Também não está direito
Ter pena dele demais
Dizer que eles são
heróis
Como muita gente faz
Cadeia para esta gente
Com tratamento decente
Em prisões especiais.”
ATAYDE, João Martins de.
In: CURRAN, Mark. História do Brasil em
cordel. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009. p. 74.
a) Como os autores da fonte #1 veem Lampião?
b) O que os autores da fonte #1 querem dizer
com “Um Lampião se apagou / Outros Lampiões ficaram / O cangaço continua / De
gravata e jaquetão”?
c) Compare os autores da fonte #1 ao da fonte #2
quanto ao modo como eles veem Lampião.
4. Leitura e escrita de textos
“Vozes do presente
A sertaneja Benedita
Cipriano Gomes, mais conhecida como Santa Dica, nasceu em 1903, na fazenda
Mozondó, no povoado de Lagoa, distrito de Pirenópolis (GO), e faleceu em 1970,
sendo sepultada em Lagolândia.
(Lagolândia: município de Goiás que se originou do povoado de Lagoa,
onde Santa Dica viveu.)
Ainda jovem, começou a
atender as pessoas do povoado que iam até ela em busca de uma bênção, um
conselho, uma cura. E logo se tornou conhecida como milagreira, profetiza e
santa. Sua casa, conhecida como Casa de Cura, passou a atrair cada vez mais
pessoas e, com isso, o pequeno povoado de Lagoa chegou a abrigar 500 famílias.
A comunidade que se
formou em torno de Dica começou a incomodar os coronéis das vizinhanças, que se
viam perdendo trabalhadores e poder sobre a população local; já as rezas e
curas de Dica, e o fato de ela realizar batizados e casamentos à sua moda,
contrariavam autoridades da Igreja Católica. Alguns jornais, reproduzindo voz
dos grupos dominantes locais, passaram a chamar Dona Dica de “Antônio
Conselheiro de saias” e a defender a destruição do seu reduto, visto por eles
como um outro Canudos.
Em 1924 ela recebeu do
governo estadual, liderado à época pela família Caiado, o convite para combater a Coluna Prestes. Dica colocou à
disposição dele seu “Exército dos anjos”, com cerca de 400 homens armados sob
seu comando. O conflito não aconteceu, mas Dica – uma mulher capaz de liderar
homens armados – ganhou prestígio e fama.
(Caiado: Antônio Di Ramos Caiado, o “Totó” Caiado, oligarca no poder
estadual desde 1912.)
Fortalecida, passou a
incentivar seus seguidores a não pagarem impostos e a criticarem abertamente as
normas da Igreja Católica e o mandonismo dos coronéis. Diante disto, assim como
aconteceu em Canudos, as autoridades enviaram soldados para destruir o reduto.
Seus seguidores resistiram à voz de prisão, mas foram vencidos. Dica foi presa
e vários de seus seguidores foram mortos. O conflito, ocorrido em 14 de outubro
de 1925, ficou conhecido como o “Dia do fogo”. Pouco tempo depois, por pressão
popular, ela foi solta.
Após sua soltura, ela se
desfez de seu exército de homens armados, mas continuou a acolher os romeiros
vindos de longe, a pedir aos anjos por eles, e a usar ervas extraídas do
cerrado para curar os doentes, em sua casa em Lagolândia. Para alguns
estudiosos, ela foi uma mulher à frente de seu tempo, para muitas pessoas
comuns, uma mulher dotada de poderes sobrenaturais, a Santa Dica. Sua história
continua suscitando interesse e debate.”
Texto escrito pelos
historiadores Hudson de Oliveira e Silva e Renato Dias Prado.
a) De que forma Benedita Cipriano Gomes
conquistou a admiração e o respeito da gente goiana?
b) Segundo o texto, a liderança religiosa de
Dica provocou a ira dos poderosos; quem eram eles? Por que se opunham a ela?
c) Compare a trajetória de Santa Dica à de
Antônio Conselheiro, apontando semelhanças e diferenças.
5. O texto a seguir é uma homenagem ao beato Zé
Lourenço feita pelo poeta cearense Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido
como Patativa do Assaré.
“Beato José Lourenço
Sempre digo, julgo e penso
que o Beato Zé Lourenço
foi um líder brasileiro
que fez os mesmos estudos
do grande herói de Canudos
nosso Antônio Conselheiro.
Tiveram o mesmo sonho
de um horizonte risonho
dentro da mesma intenção
criando um sistema novo
para defender o povo
da maldita escravidão.
Em Caldeirão trabalhava
e boa assistência dava
a todos os operários
com a sua boa gente
lutava pacificamente
contra os latifundiários.”
ASSARÉ, Patativa. Digo e não peço segredo. São Paulo:
Escrituras, 2001. p. 106.
(Latifundiário: grande proprietário de
terras.)
Responda:
a) Na primeira estrofe, o poeta faz uma
comparação entre dois importantes personagens históricos. O que essa comparação
informa sobre eles?
b) De acordo com o contexto, interprete, na
segunda estrofe, as expressões “mesmo sonho”, “horizonte risonho” e “sistema
novo”.
c) A segunda estrofe se encerra com o trecho:
“para defender o povo da maldita escravidão”. O que seria essa “maldita
escravidão”?
d) Interprete a expressão “boa assistência” na
terceira estrofe e explique as estratégias empregadas pelo beato em defesa do
povo.
6. Leia o texto
“Você cidadão!
Estado brasileiro, Povos
Indígenas e o Marechal Rondon
Em 1910, o governo
brasileiro interferia pela primeira vez na questão indígena, criando o Serviço
de Proteção ao Índio (SPI), cujo objetivo era prestar assistência a todos os
índios. Por sua habilidade no trato com os povos indígenas do Mato Grosso, o Marechal Cândido Rondon (1865-1958) foi
convidado para ser diretor do SPI.
Sob a direção de Rondon,
o SPI visava, sobretudo, a integração do indígena à Nação; e, para tal,
propunha os seguintes passos: atração, pacificação, civilização e a obtenção,
junto ao governo de cada estado, de um território para o grupo viver. O Código
Civil de 1916 considerava os indígenas incapazes de assumir integralmente suas
responsabilidades e determinava que deviam ser tutelados pelo Estado até sua
total integração à sociedade brasileira, isto é, até deixarem de ser índios.
Dessa forma, o Código Civil de 1916 equiparava os indígenas às pessoas entre 16
e 21 anos e aos loucos.
As autoridades que
trabalharam no Código não compreendiam que os indígenas são capazes, sim;
ocorre que eles possuem culturas próprias e são culturalmente diferentes de
nós. O SPI atuou em áreas de colonização como São Paulo, Paraná, Espírito
Santo, Mato Grosso, entre outras. Nessas áreas foram instaladas equipes de
atração e postos indígenas. Os inspetores do SPI adotavam a técnica de contato
desenvolvida por Rondon, que consistia em manter uma atitude defensiva em
relação aos índios até que o relacionamento com eles fosse estabelecido. Depois
buscavam, junto aos governos estaduais, garantir uma terra para o grupo.”
(Marechal Cândido Rondon: militar positivista para quem o Estado
brasileiro devia criar uma agência com o objetivo de: “estabelecer a
convivência pacífica com os índios; fazer os índios adotarem gradualmente
hábitos ‘civilizados’; influir de forma ‘amistosa’ sobre a vida indígena; fixar
o índio à terra; contribuir para o povoamento do interior do Brasil”.)
Responda:
a) Segundo o texto, qual era o objetivo do SPI?
b) O que as autoridades do SPI entendiam por
“integração total do índio à sociedade brasileira”?
c) O Código Civil de 1916 equiparava os
indígenas às pessoas com idade entre 16 e 21 anos e aos loucos; explique.
d) Em dupla. Debatam, reflitam e opinem: na
atualidade o Estado brasileiro tem protegido os indígenas? Postem a conclusão
de vocês no blog da turma.
BJOS DO SOR!























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