C30. Filosofia


ESCOLA MUNICIPAL DE ENSINO FUNDAMENTAL VEREADOR CARLOS PESSOA DE BRUM
Rua da Abolição, s/nº – Restinga Velha/Porto Alegre/RS

NOME: ______________________________________________________________________________________
COMPONENTE CURRICULAR: FILOSOFIA      PROFESSOR: FÁBIO GAI PEREIRA     DATA: _____/_____/_____

A)   Leia o texto a seguir.
Mentira
Fábio Gai Pereira

Era uma bela tarde de sábado onde todos, inclusive eu, descansávamos depois de um almoço delicioso preparado pela vó Izabela, que costumava ser carinhosamente chamada de vó Iza. A macarronada tinha um molho incrível, todos nós adorávamos. Não tinha como não gostar do que a vó Iza preparava. Ela colocava amor e um imenso carinho quando preparava a mesa para suas netas Carolina e Joana e seu neto Joaquim. Bem, eu sou o Joaquim. Hoje, entretanto, bem mais velho.
Carolina ou Carol, como gostava de ser chamada, era um linda garotinha de 7 anos. Seus cabelos encaracolados e ruivos, seu sorriso encantador e seus olhos pretinhos como uma jabuticaba, iluminavam a casa. Joana tinha 16 anos, linda também. Dizem que a Carol é a sua versão criança. Eu era o mais velho. Tinha 21 anos. Eu tinha um jeito sério, cuidador, gostava de bancar o irmão atencioso e responsável.
Vó Iza e Vô Nelson adoravam receber seus netinhos, os filhos da Dona Marisene e de José Carlos. Vô Nelson ficou muito doente e morreu, deixando a família mais triste. Mas as lembranças dos almoços que contavam com a sua presença são maravilhosas. Todos os filhos e netos em volta da mesa, e ele cantando antigas melodias ensinadas pelos colonos italianos. Vó Iza e vô Nelson gostavam de, uma vez ou outra, juntar os netos e ensinar-lhes as famosas “Lições para a Vida” depois do soninho da tarde, que era um descanso merecido após tanta conversa e animação, que envolviam esses famosos almoços. Nessas conversas, cheias de amor e de profundos ensinamentos, todos escutavam com muita atenção. Depois, tudo acabava com uma piada, cafuné no colo do vô e da vó e um café da tarde repleto de guloseimas...
Lembro até hoje de uma dessas conversas. Coube a mim tomar a decisão. Mais tarde você saberá do que estou falando.
- Vó, o que a senhora vai nos dizer hoje? – Perguntou Carol.
- Hoje a lição será dada pelo vô Nelson. Mas eu o ajudei a pensar no que vai ser dito. Faço minhas essas palavras que ele vai dar a vocês.
- Joaquim, Carol, Joana... já falamos dessa lição para os seus primos e primas. Só faltam vocês. Hoje, o vô e a vó querem falar a vocês sobre a importância de nunca mentir. Mentir é sempre errado. Toda forma de mentira é perigosa, traz problemas a todos os envolvidos e, por tirar dessas pessoas a verdade, a mentira só as engana, faz com que passem por um papel de bobos e não dá a chance para elas de enfrentar a realidade, que é sempre melhor para todos. Sobre um assoalho mal feito não se constrói uma casa segura. Da mesma forma é a mentira, sobre ela não é possível construir nada que seja realmente bom e confiável.

Vô Nelson, naquela mesma tarde, ainda contou histórias cujo final mostrava que a mentira é a pior opção, falou ainda que a nossa família sempre cultivou a verdade como um valor e no final, para descontrair, distribuiu balas e pirulitos, tentado amenizar o peso de todo aquela conversa. Vô Nelson partiu, mas ficaram as suas lições, que suavizam, mas que também são capazes de perturbar. Ele partiu em fevereiro e em julho daquele mesmo ano a Carol começou a ficar doente. Ela teve Leucemia. A doença se agravou rapidamente. Até o momento em que ela ficou extremamente frágil. Em dezembro os tratamentos já não estavam mais respondendo e no mesmo ano a nossa família teria conhecido toda a felicidade e toda a tristeza. Um amigo, o seu fiel amigo parecia saber de tudo. Felpudo, o seu cachorrinho. Ele parecia sentir a tristeza da menina. Ela que perdera seu avô em fevereiro, agora via a si mesma em uma situação tão difícil. A perda do avô e agora, a perda iminente da sua própria vida.
- Mãe, traz o Felpudo.
- Minha filha, aqui é um hospital. É proibida a entrada de animais. – Esclarecia a Dona Marisene, quase em lágrimas.
- Mas mãe... aposto que ele ficaria juntinho de mim agora.
- Filha, não faz assim. Procura entender, Carol.
- Ah, mãããeee... – E o seu choro convulsivo fez daquele quarto o mais triste do mundo.
Dona Marisene não se aguentou. Falou com o médico-chefe. Pediu a ele que concedesse esse pedido da filha. Ele teria que entender.

- Doutor Augusto, entenda a situação. Ela é minha menina... está nos deixando. O senhor mesmo me disse que ela teria pouco tempo... (lágrimas caíam dos seus olhos). Deixe que o cachorrinho dela fique um pouco. Deixe que a dor dela seja aliviada.
- Já falamos sobre isso, Dona Marisene. Tenho responsabilidade com outros pacientes do hospital. Não posso colocar os demais internados em risco de contaminação. Os animais, por maior que sejam os nossos cuidados para que fiquem limpos, não fazem a higiene como nós e, portanto, são potenciais agentes de contaminação.

Dona Marisene não sabia mais o que fazer. A menina chorava, chorava... e agora só queria o cachorrinho. Até que falei com minha mãe.

- Mãe, vamos levar o Felpudo escondido. Pronto! Tudo resolvido.
- O doutor falou sobre contaminação, Joaquim. Não podemos.
- Mãe, pensa bem. Ninguém precisa ficar sabendo. De noite sempre ficamos com a Carol, de madrugada eu sei exatamente os horários em que as enfermeiras de plantão a visitam. O Felpudo é um xitzo, ele nunca late. Ninguém vai nem desconfiar.
- Não Joaquim. Esquece essa história.
- Mas, mãe, a Carol está sofrendo. Podemos amenizar um pouco isso tudo se levarmos o bichinho para ficar com ela. Eu o ponho dentro de uma sacola. Ela pode vê-lo algumas vezes em algumas noites. Aposto que ela dormiria bem melhor.
- Chega, Joaquim! Não venha me dizer que ela está sofrendo! Eu sei! Me prometa que vai esquecer essa história. Me prometa que não vai fazer nada disso. Lembre-se da última lição do seu avô sobre mentira. Não vá me decepcionar, hein?!
- Certo, mãe.
- Não ouvi!
- Eu prometo. Não vou fazer nada disso.

Eu menti. Na noite seguinte eu levei o Felpudo. Ela sorriu de um jeito lindo. Carol estava linda. Mas eu menti. Não falei a verdade. Me lembro bem disso. Da minha mentira. Já se passaram 20 anos. E lembro também que parecia que a Carol estava só esperando o Felpudo. Aquele foi o último sorriso que vi da Carol, assim como foi também o último sorriso que ela entregou a alguém enquanto seus olhos ainda podiam se abrir. Carolina também é o nome da minha filha. Ela tem a mesma idade que a Carol tinha.

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ATENÇÃO!

A atividade é individual.
Retire uma folha do seu caderno.
Copie à caneta as perguntas nesta folha do caderno que você retirou.
Responda a lápis.
Responda com cuidado. O capricho também será avaliado.
RELEIA as respostas antes de entregar o trabalho.
B)   Responda

1)     Qual parte do texto você mais gostou e explique o porquê de ter gostado.
2)    No texto, o personagem admite que mentiu. Você acha que ele fez certo? Explique por que você acha isso.
3)    Existem situações em que mentir pode ser bom? Explique.
4)    Qual é exatamente o problema de mentir?
5)    Descreva uma situação em que você tenha mentido e explique as razões que o levaram a fazer isso.
6)    Existem “mentiras boas” e “mentiras ruins”? Explique a sua resposta.

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