Filosofia. C10


CONTEÚDO: O NASCIMENTO DA FILOSOFIA
MATERIAL 1

A AURORA DO CONHECIMENTO
Autor: Fábio Gai Pereira

Imagine-se em uma época em que você e todos aqueles que estão no seu convívio não conhecem praticamente nada sobre a natureza. Estamos agora por volta de 800 a.C. Onde? Na Grécia... Você e seus conhecidos andam e lá pelas tantas caem pingos de água lá do alto e você não sabe o porquê disso. Ninguém é capaz de fornecer explicações desse tipo de fenômeno. Ninguém tem a mínima ideia sobre o motivo disso. E às vezes esses pingos caem em forma sólida... Outras vezes são acompanhados de ventos fortes que destroem um povoado inteiro, em outros momentos esses ventos são mansos e nos trazem um clima de tranquilidade e descanso. Entretanto, esses mesmos ventos, em outras ocasiões, giram em torno de si e parecendo ganhar vida própria deslocam-se varrendo tudo o que encontram pela frente.

E o mar? Aquela imensa quantidade de água... por que ela não se espalha? Por que não derrama pela praia inteira já que não se trata de um reservatório? E ainda, por que ela recua algumas vezes e avança em outras? E aqueles movimentos de vai-e-vém? Por que acontecem? Você está em 800 a.C. Na Grécia. Além disso tudo, há uma bola amarela lá em cima, suspensa no espaço... Essa bola irradia luz e calor. Surge de um lado, depois vai se deslocando lentamente, de um jeito que nem percebemos, até alcançar um lugar acima de nossas cabeças e depois vai caindo no lado oposto de onde surgiu... Passando um tempo, lá em cima, no lugar da bola amarela, surge uma bola branca com desenhos dentro de si. A forma dessa bola varia muito no período de alguns dias. Quando a bola amarela está lá em cima há uma claridade, quando vem a bola branca é porque é o momento da escuridão. De tempos em tempos essa mesma bola amarela é escurecida parcialmente ou totalmente. Por quê?

Você, que é grego e está em 800 a.C., e desconhece as causas de todas essas situações, que sentimento vai tomando conta de você agora? Medo? Angústia? Estranheza? Admiração? Precisamos saber as causas desses acontecimentos, estamos sentindo vontade de entender esses fenômenos. Essa vontade faz parte de nós, também não sabemos ao certo o porquê. Sentimos necessidade de compreender, pois nossas vidas são postas em perigo muitas vezes que alguns desses fenômenos acontecem. Então, começamos a observar certas regularidades... Por exemplo, sempre que caem esses pingos de água, lá no alto aquelas formas que parecem grandes amontados de algodão ficam escurecidas. Bem, talvez haja alguma regra de funcionamento na natureza. Quando fica calor demais algumas plantas morrem, quando cai muita água outras também morrem. Parece que a água tem a ver com a manutenção da Vida. Causa problemas em excesso ou quando está em falta. Mas parece ser indispensável, na medida certa. Começamos a fazer associações. Começamos a refletir, a raciocinar, a estabelecer relações entre o nosso pensamento e os acontecimentos da natureza. E “enxergamos” um nexo entre os acontecimentos da natureza.

Percebemos que os únicos seres que conseguem construir coisas de modo mais elaborado, mais detalhadamente analisado e pensado, sem repetir meros padrões dos ancestrais, são os seres humanos. Em 800 a.C. não conseguimos perceber outro ser vivo capaz de inventar instrumentos tão bem produzidos, manipular o fogo, o metal, construir casas, elaborar monumentos como as pirâmides do Egito, calcular, escrever, esculpir figuras em materiais extraídos da natureza... A primeira hipótese da maioria foi... Parece que há uma ordem, pois a natureza segue algumas regularidades, basta observar... Bem, um ser humano poderia irradiar tanta luz e tanto calor quanto aquela bola amarela? Os humanos que são os seres vivos mais capazes que conhecemos, poderiam eles mesmos dominar uma quantidade tão imensa de água? Ou empurrar os ventos com tanta força? A primeira hipótese da maioria foi que, provavelmente, seres ainda mais capazes do que os seres humanos comandam a ordem da natureza. Mas esses seres, para conseguirem fazer isso tudo, devem ser dotados de poderes muito mais amplos do que aqueles que estamos acostumados a ver nos seres humanos. Como não vimos o início da natureza (será que alguém viu?) talvez eles sempre tenham existido... Que seres seriam esses? Precisam ser mais do que humanos... São DEUSES.
Entretanto, em uma cidade portuária chamada MILETO, situada na Grécia, o mundo testemunhará mudanças que marcarão para sempre a história da humanidade. Essa cidade, pelo fato de possuir um porto marítmo onde havia um grande fluxo comercial, recebia pessoas de diversos povos. As características dessa cidade facilitavam o trânsito de moradores de outras regiões, justamente porque era mais fácil chegar até a Grécia através do porto, o qual oferecia as condições para um dos meios de transporte de média e de longa distância mais utilizados na época: a navegação. Um homem chamado Tales de Mileto (era comum que os sobrenomes indicassem a cidade de nascimento) começou a fazer algumas investigações sobre a natureza. Muito provavelmente contando com adiantados conhecimentos de outros povos, ele agregou aos seus estudos as pesquisas feitas por outras pessoas. Ele chegou a resultados impressionantes. Vários deles teriam marcado para sempre a humanidade. Um deles, em especial. Bem, é preciso dizer que já estamos em 585 a.C. e Tales de Mileto previu um eclipse total do Sol. Com base em seus cálculos, ele apresentou à comunidade a certeza de que esse evento ocorreria. Seria ele um privilegiado dos deuses? Um homem com poderes especiais? Não... Ele é apenas o PAI DA FILOSOFIA. E o precursor do que chamamos hoje em dia de FÍSICA. Sim, ele também é considerado um dos pais da Física, aliás essa ciência tem o seu nome derivado de Physis (pronuncia-se fisis), que significa natureza, em grego. Ele foi um dos primeiros investigadores científicos da natureza, um dos primeiros a abandonar as explicações mitológicas.

Por isso, costumamos dizer que o nascimento da Filosofia caracteriza-se pela passagem do mito para o lógos, que quer dizer razão, em grego. Essa passagem significa o abandono das explicações sobrenaturais, ou seja, explicações baseadas em uma realidade que não é a mesma que estamos acostumados a conviver e, além disso, geralmente está baseada também em algo que você nunca experimentou com qualquer um dos sentidos naturais, que são aqueles que nascem com você: visão, audição, tato, olfato e paladar, por isso sobrenatural. Portanto, um ser sobrenatural possui características que não são as mesmas que estamos habituados a ver nos seres que normalmente convivem conosco; muitas vezes, para imaginá-lo, parece ser necessário admitir que ele não pode ser captado por nenhum de nossos cinco sentidos. Afinal, vejamos o caso, por exemplo, do deus dos ventos... alguém já o viu? Já o cheirou? Ou tocou nele? Aliás, pergunto: será que alguém já teve contato sensível com os deuses? Questão difícil essa... Já um ser natural, é aquele que você consegue captar com os sentidos naturais, mesmo que não precise utilizar todos ao mesmo tempo, por exemplo, um livro. Você pode vê-lo (visão), tocá-lo (tato), cheirá-lo (olfato), mas não vá experimentar o seu gosto (paladar) e nem tentar ouvi-lo (audição)!

Portanto, com os primeiros filosófos gregos, surge uma nova compreensão da Vida: por exemplo, quando o Sol era coberto por alguma coisa considerada desconhecida e ficava sem irradiar luz por alguns minutos, costumava-se atribuir isso aos caprichos do deus Apolo, mas quando Tales de Mileto explicou esse fenômeno baseado na compreensão de leis da natureza, costuma-se dizer, tradicionalmente, que esse evento marca simbolicamente o surgimento da Filosofia e dos primeiros esforços para a criação da ciência. “Simbolicamente”, pois não é que antes disso ninguém tivesse pensado profundamente sobre alguma coisa! É apenas uma referência, um fato, que com frequência é utilizado para demarcar uma nova era...

E assim, começa a dimimuir entre as pessoas a força da mitologia como fonte de explicações sobre a realidade. A humanidade vai dando os primeiros passos para uma forma diferente de relacionar-se com a natureza...

Aos poucos você foi levado a retornar ao seu ano atual, no século XXI. Mas, como sabemos que algumas pessoas do passado acreditaram em deuses? Bem, sabemos porque chegaram até nós alguns relatos sobre a origem do mundo que afirmavam a existência de deuses, os quais teriam sido os responsáveis pelo início da vida humana. Essas mesmas narrações também traziam explicações sobre o surgimento do amor, do medo, enfim, de diversos sentimentos presentes na humanidade, além de fornecerem explicações sobre os fenômenos da natureza. Esses relatos sem comprovação e cheios de fantasia, que costumavam tratar, entre outras coisas, sobre os fenômenos naturais, sobre a origem do mundo, dos seres humanos e sobre o destino das pessoas, ficaram conhecidos como MITOS. Por exemplo, para os gregos, o responsável pelo mar era Poseidon, pelo sol era Apolo, já o amor era representado por Afrodite... Entretanto, para os romanos o mar era governado por Netuno... Vários povos apresentaram narrativas com essas características. Ao conjunto de mitos damos o nome de MITOLOGIA. Aqui no ocidente, há uma influência maior da chamada Mitologia Greco-Romana, que nada mais é do que o conjunto de mitos surgidos na Grécia Antiga e na Roma Antiga. E agora, qual é a sua curiosidade? Você ACREDITA em DEUSES? Conhece algum MITO? Pesquise, leia... Sobre o que VOCÊ QUER SABER MAIS?

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