Atividade 4. Língua Portuguesa. C20
EMEF V. C. PESSOA
DE BRUM – LÍNGUA PORTUGUESA
Estudante:
____________________Turma: ____ Data: ___/___/___ Profª Dafne Rosa
TEXTO
1
Numa pequena aldeia
de Mancha, província espanhola, vivia um fidalgo[1].
Homem de costumes rigorosos e de uma decadente fortuna. [...] vivia da
exploração de suas propriedades, que mal lhe rendiam para manter uma simples
aparência de abastança[2].
Homem forte, altivo e nervoso, cultivava a caça como esporte e forma de
abastecer sua mesa.
Aos cinquenta anos,
magro, alto, de gestos imponentes[3]
e certa altivez[4]
forçada, era mais conhecido por sua enorme biblioteca, onde empenhava toda
moeda conseguida nas colheitas ou pela venda sucessiva de partes de suas
terras, do que propriamente por sua esquisita maneira de viver. Entre um povo
de raras leituras, como era o de sua aldeia, causava espanto e admiração aquela
voracidade[5]
com que comprava e consumia livros e mais livros. E o mais intrigante era que
toda sua biblioteca só abrigava livros sobre aventuras de cavalaria andante[6]
– na época, coisa do passado.
Perambulando[7]
por sua propriedade ou visitando amigos da aldeia, o imaginoso fidalgo ia
recompondo as aventuras que lia, incluindo-se no enredo[8],
o principal herói, e conduzindo a história a seu bel-prazer[9].
À força de tanto
ler e imaginar, foi-se distanciando da realidade a ponto de já não poder
distinguir em que dimensão vivia. Varando noites e noites à luz de um
candeeiro, lia, relia e reconstruía, à sua maneira, o desenrolar de todas as
aventuras.
Aqueles livros,
ultrapassados pelo tempo e cheios de citações absurdas, contribuíram para
confundir ainda mais a mente do fidalgo. [...]
De tanto imaginar,
um dia rompeu o elo que o prendia à realidade. Num estado febril e agitado,
iniciou uma existência onde só existiam personagens de cavalaria andante.
Eram gigantes para derrotar, castelos que deviam ser assaltados, donzelas
prisioneiras de algum tirano para salvar e legiões de bandidos para combater.
Foi assim que,
completamente transtornado, resolveu que seria cavaleiro andante, e partiria
com suas armas e seu cavalo em busca de aventuras, e perseguindo justa fama.
CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote: o cavaleiro de triste figura. São
Paulo: Scipione, 2007.
TEXTO 2
O personagem leitor é um personagem curioso,
estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é
tão terrivelmente ligado ao escritor que na verdade, ele, o leitor, é o
escritor.
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
1) Quixote é apresentado como homem de costumes
rigorosos, de decadente fortuna, forte, altivo e nervoso.
a)
O trecho mostra que o Quixote foi aos poucos se distanciando da
realidade em que vivia para entrar em um novo mundo. Como esse processo foi
acontecendo?
b)
Que imagem de leitor está representada nesse trecho do romance?
2) O trecho deixa entrever
um diálogo entre a obra de Cervantes e outras obras.
a)
Que tipo de obras seriam essas?
b)
Pelo trecho transcrito é possível supor algumas características dessas
obras. Destaque duas delas.
3) Ao romper definitivamente
com a realidade, Quixote incorpora uma personagem dos mesmos livros que lia. O
que ocorre com ele?
4) Clarice Lispector chama o
leitor de personagem do texto. Relacione a afirmação de Clarice com o trecho de
Dom Quixote: que relação podemos fazer entre leitor e escritor?
5) No texto 2, o leitor é
descrito como alguém “curioso” e “estranho”. Como tu interpretas essas
qualidades do leitor? Como seria se todos os leitores fosse assim?
[1] Fidalgo: Aquele
que possui titulo de nobreza.
[2] Abastança: Riqueza,
abundância.
[3] Imponente: Que
se impõe por suas dimensões, grandioso.
[4] Altivez: Sentimento
de dignidade, nobreza.
[5] Voracidade: Vontade
intensa.
[6] Cavalaria
andante: Instituição militar da Idade Média, em que
os cavaleiros corriam terras em busca de aventuras
para lutar por causas consideradas justas.
[7] Perambular: Andar
sem destino.
[8] Enredo: conjunto de fatos que compõem uma narrativa.
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